Estamos frente a frente, de costas voltadas para o que tínhamos
sonhado para nós. O ar está rarefeito e as paredes ardem de tanto fogo iminente.
Calada, olho para ti. Os teus olhos fogem-me, mas sabem o que sinto e
como me sinto. Procuro-te e não consigo encontrar-te. Angustiada, fujo - para o
que era o nosso reduto - na esperança que venhas atrás de mim e, sem proferires
uma palavra que seja, me abafes com a concha que os teus braços formam. Mas a
minha ilusão revela ser bem mais frágil do que a tua realidade e, parado,
fizeste uma pausa no comando da vida que era nossa.
A tua indiferença apunhala-me de frente e eu caio, indefesa, no chão
da tua ausência. Esmagada por uma dor que não devia ser minha, tento, em vão,
erguer-me e extrair-te de mim. Olho pela janela: vejo o sol baço e o céu de um
azul completamente desmaiado. Oiço crianças a brincar lá fora e suas
gargalhadas parecem rir do meu infortúnio.
Este deserto já me consumiu. Totalmente desnutrida, caminho em busca
de uma miragem que me fortaleça e me presenteie com o oásis que, sei!, mereço.
A discussão não chegou a acontecer. Não lamento. Há discussões que,
sabe-se, não acontecem jamais.

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