Hoje, viro-lhe as costas. Não quero nada com ela.
Não. Não estou zangado. Apenas desiludido: ela desvia-me
de cada tentáculo da realidade. Não me deixa, sequer!, espreitar o mundo. É
egoísta. Ciumenta. Possessiva. Persegue-me qual predador furtivo.
Não posso permitir tal desfaçatez: viro-lhe as costas:
ignoro o seu chamamento. Mas quem é que manda em mim? Eu. Apenas eu. Mais
ninguém. Tenho toda uma vida pela frente. Quero vivenciar, experimentar o lado
mundano da minha existência. Tenho deveres a cumprir neste mundo de onde sou
natural, mas onde não tenho habitado. Tenho que enfrentar a vida sem métrica.
Sem medida. Sem pensar no que me vai na alma (ou na alma de uma outra alma
qualquer). Tenho que regressar às minhas humildes origens: pode ser que, amanhã,
quem sabe?, regresse e faça as pazes com ela.
Adoro-a. Mas hoje ela não me apetece. Ando cansado
da sua melodia (estudada); da sua beleza (natural).
Hoje, viro as costas à poesia.

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