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sábado, 26 de março de 2016

Mulher Saber



Porque agiu de coração cheio,
fez o que achou melhor
naquele preciso instante.
É agora quem nunca foi:
uns dias raiz tremida;
outros botão de primavera.
É intensa nos amores
e ainda mais nas dores.
Há vezes em que preferia ser pluma
nos pensamentos
e sentimentos,
mas é isto que escrevo
e tanto mais que desconheço.
Não nasceu assim.
Tem-se feito com lascas caídas
na terra que a há-de cobrir
moldada por razões
ainda por descobrir.
Fez o que fez
com alma e coração.
E não pode ser erro
o que nunca foi premeditado.
Fez o que é:
entre a pressa de ontem
e a ânsia do dia seguinte,
a doce tranquilidade.
Se bem a sei,
voltaria a caminhar de pés assentes
na vontade certa das ilusões para sempre.


quarta-feira, 9 de março de 2016

Na verdade



Sim. É verdade.
Gosto do teu colo.
Das tuas mãos a passearem no meu cabelo.
Dos teus dedos a tactearem as linhas do meu rosto.
De me sentir mimada no meio dos teus braços
ao ouvir o teu coração a querer saltar para junto do meu.
Gosto do conforto.
Da serenidade. 
De saber-me observada em todos os pormenores
e não me importar que me dispas as marcas do tempo
porque sei que as vês com carinho e respeito.
Gosto de estar contigo: fechar simplesmente os olhos
para que os sentidos entrem e deixem respirar a vida.
(Há momentos de uma cumplicidade tal
que o silêncio faz a vez das palavras
e sorrimos sem percebermos
como nos percebemos tão bem.)
Sim. É verdade.
Sou egoísta.
Quero-te só para mim.
Que a tua alma veja apenas a minha.
Que os teus braços sejam só para mim.
Que os teus dias andem à procura dos meus.
Eu sei que não posso, nem devo,
confessar semelhante fraqueza minha:
adorar essa tua humanidade inteira
e pensar que tenha sido concebida
especialmente para mim só.
Seria dar ar de importante no universo
quando o universo tem mais que fazer
do que querer fazer-me Feliz. 
Mas, sim, é verdade:
sou mesmo assim.


domingo, 6 de março de 2016

A corda



Há uma corda de fios duros de quebrar
a envolver os dias por consertar.
Os golpes vão da pele até às desilusões
de a realidade ser pura felicidade.
Cada gota vertida aumenta a força
de, às vezes, o difícil ser impossível.
Mas depois vem o sol
cheio de vontade de aquecer os sonhos
e a descrença vira esperança
de que há noites de lua escondida
por detrás de mim criança.
Há uma corda de nós apertados
com medo de acordar vazio
da vida já perecida no estreito
desta longa avenida.
E o turbilhão que me tira o chão
há-de amparar a calçada
e ser a almofada para dar descanso
e lugar aos dias por me encontrar
onde quero tão apenas estar.
Corda maldita.
Apertas a alma que se quer solta
para voar até à razão por que vivemos
para lá desta existência mera de um momento.
Corda mal amada.
Incompreendida.
Julgam-te infortúnio dos desinvestidos,
mas és o dedo escorregadio
a virar a página de um novo livro.


quinta-feira, 3 de março de 2016

Linhas tortas



Nem sempre me percebo
no meio de tanto sem contar.
Entre a calma do tem de ser
e a alma a sorrir para fora.
A pressa de agarrar o tempo
e o medo de perder o ar.
As linhas onde muito escrevi
já o vento as levou para sítio incerto.
Apenas resta a lembrança saudade
de tudo o que fui em palavras
de todos os meus ainda sonhos
sem tentar ver para onde as linhas
travessas me querem levar agora.
Nem sempre me percebo,
mas sei-me por dentro
de todas as lágrimas já feridas ,
de todos os suspiros de vontade,
de todos os abraços por prender.
Nunca pensei ter tanto tendo tão pouco
quando há quem tenha muito de nada.
Neste meu mar sem horizonte,
sei que as linhas me querem
levar algures para além de mim.
E eu vou deixar-me ir com elas
com a certeza, porém,
de que as palavras continuarão
a ser as mesmas dos meus sonhos.
Nem sempre me percebo,
mas percebo perfeitamente
quem eu quero muito ser.


quarta-feira, 2 de março de 2016

Só hoje



Hoje, e só hoje,
sou pequenina o bastante
para me caber dentro
do teu abraço profundo,
ladeada do teu calor
mais forte que este inverno
cheio de teimosia e vaidade.
Adormeço tranquila no teu colo,
mesmo sabendo que o dia
acaba sempre cedo demais,
despojando-me de vergonhas
por teres ali contigo
o mais vulnerável de mim.
Fecho-me na palma da tua mão
e encolho todos os meus medos
e todas as minhas saudades.
Deixo-me levar nas ondas
desse teu mar revolto
e, assim mesmo, sei
que o barco será mais duro
que qualquer tempestade.
Hoje, e só hoje,
sei-me pequenina diante
do teu desconhecido
que em nada me inquieta,
mas desperta o cuidado
que a tua memória minha
não apague os passos passados
na areia já de ondas idas
e que a vontade que te reconheço
não esmoreça com o que há-de vir.