As meias, no
meio da sua não vida, existem na vida de qualquer pessoa. E a forma como
lidamos com elas, as meias, pode ser uma analogia às relações. Umas coloridas.
Outras formais. Outras ainda ao estilo romântico (com laços e folhos e todo o
tipo de ornamento desnecessário para o fim a que se destina, mas que apela ao [mau]
gosto de cada um). Umas lavadinhas. Outras nem por isso. Enfim, são muitas as
meias, de preferência aos pares, que calçamos ao longo da vida.
A ordem, ou falta dela, com que as arrumamos na gaveta ou as estendemos no
estendal não é senão um sinal de insegurança por não sabermos lidar com a
incerteza. Como se umas meias descasadas fossem sinónimo de caos na existência.
De este-mundo-está-perdido. De ai-o-que-é-que-eu-faço-agora-com-isto.
Muito simples. Num imprevisto como este (que de imprevisto nada tem porque as
meias, já sabemos, ganham vida na máquina de lavar), há que contornar o
estipulado, o eticamente correcto e criar uma nova tendência: meia esquerda
preta lisa, meia direita azul às bolinhas amarelas. Há que apelar à
originalidade e ao não preconceito. Qual seria o mal disto? Afinal, os pés, tal
como as mãos, os dedos e os irmãos gémeos, são diferentes. Não fará mais
sentido cada pé calçar a meia que lhe aprouver?
Outro problema inerente às meias é a forma como nascem do chão como erva
daninha. É impressionante. Segundo as estatísticas, tal facto inusitado
acontece em 99,99999% das vezes em casa de jovens e homens solteiros. Haverá
alguma relação hormonal entre as meias? Ou será mera promiscuidade? Será, eventualmente,
um caso a estudar…
O que é certo é que com meias descasadas ou esburacadas, os pés continuam a
andar. Podem estar cheios de calos, com unhas encravadas e micoses manhosas,
mas não são as meias que ditam o fim da caminhada. No final das contas, as
meias servem para nos servir e confortar, não para nos tirar o sono a cada
mistério por resolver…