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quarta-feira, 5 de julho de 2017

Do tormento

Não esperem nada de mim.
Sou a desculpa que tarda
e não a vontade que avança.
Sou o medo que sufoca
e não a vida que acerta.
Sou colina.
Sou deserto.
Sou nómada de alma nos pés
e coração no chão.
Sou quem não revejo
mas vejo que nada sou
para além deste corpo
que um dia deixará de ser.
E se, entre amores que partem
e dores que vão ficando,
o dia ainda amanhecer,
é porque o meu tormento
tarda em partir.
Não esperem por mim.
Estou perdido no tempo
num tempo sem fim.




sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ser dúvida


Não é fácil ser eu.
Ser mulher
quando me sinto menina.
Ser muito mãe
quando sou tão filha.
Ser uma boa amiga
para quem precisa.
Ser família
todos os dias.
Ser presente
quando estou a olhar a lua.
Ser quem sou só para mim:
se nem eu me compreendo,
para quem me rodeia
sou uma estranha dúvida.
Eis porque guardo nos meus silêncios
a leve esperança de que a memória
me suspire ao ouvido
o sonho que tens para mim:
sem sopa de letras, nem palavras cruzadas.
Não é fácil ser eu.
Umas vezes certeza.
Outras nem por isso.






quinta-feira, 4 de maio de 2017

A meias com a relação



As meias, no meio da sua não vida, existem na vida de qualquer pessoa. E a forma como lidamos com elas, as meias, pode ser uma analogia às relações. Umas coloridas. Outras formais. Outras ainda ao estilo romântico (com laços e folhos e todo o tipo de ornamento desnecessário para o fim a que se destina, mas que apela ao [mau] gosto de cada um). Umas lavadinhas. Outras nem por isso. Enfim, são muitas as meias, de preferência aos pares, que calçamos ao longo da vida.
A ordem, ou falta dela, com que as arrumamos na gaveta ou as estendemos no estendal não é senão um sinal de insegurança por não sabermos lidar com a incerteza. Como se umas meias descasadas fossem sinónimo de caos na existência. De este-mundo-está-perdido. De ai-o-que-é-que-eu-faço-agora-com-isto.
Muito simples. Num imprevisto como este (que de imprevisto nada tem porque as meias, já sabemos, ganham vida na máquina de lavar), há que contornar o estipulado, o eticamente correcto e criar uma nova tendência: meia esquerda preta lisa, meia direita azul às bolinhas amarelas. Há que apelar à originalidade e ao não preconceito. Qual seria o mal disto? Afinal, os pés, tal como as mãos, os dedos e os irmãos gémeos, são diferentes. Não fará mais sentido cada pé calçar a meia que lhe aprouver?

Outro problema inerente às meias é a forma como nascem do chão como erva daninha. É impressionante. Segundo as estatísticas, tal facto inusitado acontece em 99,99999% das vezes em casa de jovens e homens solteiros. Haverá alguma relação hormonal entre as meias? Ou será mera promiscuidade? Será, eventualmente, um caso a estudar…

O que é certo é que com meias descasadas ou esburacadas, os pés continuam a andar. Podem estar cheios de calos, com unhas encravadas e micoses manhosas, mas não são as meias que ditam o fim da caminhada. No final das contas, as meias servem para nos servir e confortar, não para nos tirar o sono a cada mistério por resolver…

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Bolha de Sabão



Cúmplices de uma força
maior que qualquer alguém
alguma vez sequer pensou imaginar:
o teu olhar no meu suspirar
em ti e por ti
quero que me leves
para lá desta bolha de sabão.
Porque afinal é de ilusão
que somos feitos
para não morrermos
sem corrermos
atrás de amores que nos fazem
tão bem assim.
Acredito neste sentimento certo
que a incerteza não me conhece.
Sei aquilo que já vivi.
O que me fez tanto chorar.
Desacreditar
que a felicidade pode estar
no brilho de um sorriso
meio envergonhado.
Cada gesto teu me arrepia
sonhos antigos e me acenam
as voltas que a vida dá.
E só posso sorrir-lhe
com a ironia de quem percebe a mensagem
por detrás de cada virar de esquina
e aguardar com a paciência de camponês
a colheita que tarda em chegar.




terça-feira, 15 de novembro de 2016

Mãe de colo



Fossem outra vez bebés
e dar-vos-ia todo o colo
que não fui capaz de dar.
Agora, olhando assim para trás,
vejo que talvez nem soubesse
o sabor desse aconchego.
Ser mãe de colo e mimo
sem ter sido filha de um abraço 
é tarefa de dor e ferida por fechar.
Ser mãe do futuro,
quando o passado pesa no corpo,
carrega fantasmas e monstros
das estórias por encantar.
Quando vos olho com olhos de mãe,
vejo os meus sonhos de criança
apressados vida adentro
sem pedir licença para voar.
Estranho Amor de mãe, este,
que amo até às entranhas
mais profundas do meu ser
mulher ainda por criar.


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Diante dos teus olhos



Nos teus olhos eu vejo
a vida toda por desvendar:
a tristeza com corpo de água;
a felicidade com brilho de alma
e todas as sensações
e todos os sentimentos
que as palavras não dizem
com medo de apenas Ser.


Diante de ti eu sinto
que, afinal, tudo vale a pena.
Mesmo este mal endurecido.
As mágoas ressequidas.
As feridas por fechar.
Porque o que os teus olhos me dizem
é tão mais forte do que qualquer devaneio meu
e me serenam até onde não me conheço.


Nos teus olhos eu vejo 
a saudade que guardo
neste nosso abraço ansioso
por fazer de cada instante
uma recordação de para sempre.

Diante de ti eu quero
desenvelhecer as dores profundas
e recordar toda uma vida por viver
nesses teus olhos famintos
de sôfrego ar e sonhos sem fim. 


terça-feira, 6 de setembro de 2016

Aquele adeus



Se um dia te lembrares de mim:
de quem para ti eu fui,
de como por ti eu sou,
podes procurar-me por onde
a distância nos levou.
Podes ver se me encontras
sozinha nos meus pensamentos
ou a conversar sobre distracções.
Podes esperar por mim
como quem insiste em nunca desistir
num faz de conta sem fadas,
nem duendes;
sem palácios,
nem madrastas.
Um encanto de duas almas
encantadas com a ilusão
que a desvontade fez por levar.
(Há hesitações que são a prova
de que não tem de acontecer
o que simplesmente não se quer.)
Se um dia te lembrares de mim:
faz o favor de ser o que ficou por dizer
naquele adeus sem despedida.