Site Optimizado para Firefox ou Chrome

O Brisa de Palavras apresenta problemas com o Internet Explorer. Em alternativa, queira, por favor, utilizar outro browser como o Firefox ou o Chrome. Obrigada.

domingo, 15 de maio de 2016

Cidade sem gente



Deserta arrasta-se a cidade
cheia de gente ávida por escutar
estórias que nem a história
de tal tem boa memória.
Os dias vagueiam desalegres
por saberem que um vislumbre
é mera ilusão com corpo
e voz de aperto saudade.
Saudade de quem foi o que foi
e se foi porque tinha de ser.
Saudade de quem vem
a ser por inteiro a metade de outro todo.
Saudade do que virá.
Do como será.
Saudade do voltar a ver.
Do voltar a abraçar.
A tão bom respirar.
Saudade do que ficou por dizer.
Do que ficou por olhar.
Por apenas dar.
Calada anda a cidade parada
no tempo que partiu
sem data marcada para regressar:
alma de malas feitas para quando
o momento chegar e dizer:
É a tua vez.


terça-feira, 10 de maio de 2016

Sem pena



Do fundo mais profundo
de um vazio sem fim:
o ar escassa
no porquê de tudo isto.
Cabisbaixo anda o olhar
sem brilho, nem cor,
à procura de respostas
para tanto nada de repente.
Áridos olhos
já nem lágrimas prometem.
Apenas uma vaga tristeza
de que podias ser tu, afinal.
Mas olhando de cabeça atenta,
sei que a mim me tenho para sempre
e de mim dependo para ser feliz.
Seria de pouca inteligência minha
se me deixasse dessecar
até ao que ainda apenas me sustém.
As janelas foram criadas
para arejar a vida
e as portas para fechar
detalhes só nossos:
adorno-me de uma capa permeável
ao amargo de uma despedida sem voz
e, assim mesmo, deixo que
as incertezas e estranhezas
partam ao encontro do que não há pena em chorar.


sábado, 26 de março de 2016

Mulher Saber



Porque agiu de coração cheio,
fez o que achou melhor
naquele preciso instante.
É agora quem nunca foi:
uns dias raiz tremida;
outros botão de primavera.
É intensa nos amores
e ainda mais nas dores.
Há vezes em que preferia ser pluma
nos pensamentos
e sentimentos,
mas é isto que escrevo
e tanto mais que desconheço.
Não nasceu assim.
Tem-se feito com lascas caídas
na terra que a há-de cobrir
moldada por razões
ainda por descobrir.
Fez o que fez
com alma e coração.
E não pode ser erro
o que nunca foi premeditado.
Fez o que é:
entre a pressa de ontem
e a ânsia do dia seguinte,
a doce tranquilidade.
Se bem a sei,
voltaria a caminhar de pés assentes
na vontade certa das ilusões para sempre.


quarta-feira, 9 de março de 2016

Na verdade



Sim. É verdade.
Gosto do teu colo.
Das tuas mãos a passearem no meu cabelo.
Dos teus dedos a tactearem as linhas do meu rosto.
De me sentir mimada no meio dos teus braços
ao ouvir o teu coração a querer saltar para junto do meu.
Gosto do conforto.
Da serenidade. 
De saber-me observada em todos os pormenores
e não me importar que me dispas as marcas do tempo
porque sei que as vês com carinho e respeito.
Gosto de estar contigo: fechar simplesmente os olhos
para que os sentidos entrem e deixem respirar a vida.
(Há momentos de uma cumplicidade tal
que o silêncio faz a vez das palavras
e sorrimos sem percebermos
como nos percebemos tão bem.)
Sim. É verdade.
Sou egoísta.
Quero-te só para mim.
Que a tua alma veja apenas a minha.
Que os teus braços sejam só para mim.
Que os teus dias andem à procura dos meus.
Eu sei que não posso, nem devo,
confessar semelhante fraqueza minha:
adorar essa tua humanidade inteira
e pensar que tenha sido concebida
especialmente para mim só.
Seria dar ar de importante no universo
quando o universo tem mais que fazer
do que querer fazer-me Feliz. 
Mas, sim, é verdade:
sou mesmo assim.


domingo, 6 de março de 2016

A corda



Há uma corda de fios duros de quebrar
a envolver os dias por consertar.
Os golpes vão da pele até às desilusões
de a realidade ser pura felicidade.
Cada gota vertida aumenta a força
de, às vezes, o difícil ser impossível.
Mas depois vem o sol
cheio de vontade de aquecer os sonhos
e a descrença vira esperança
de que há noites de lua escondida
por detrás de mim criança.
Há uma corda de nós apertados
com medo de acordar vazio
da vida já perecida no estreito
desta longa avenida.
E o turbilhão que me tira o chão
há-de amparar a calçada
e ser a almofada para dar descanso
e lugar aos dias por me encontrar
onde quero tão apenas estar.
Corda maldita.
Apertas a alma que se quer solta
para voar até à razão por que vivemos
para lá desta existência mera de um momento.
Corda mal amada.
Incompreendida.
Julgam-te infortúnio dos desinvestidos,
mas és o dedo escorregadio
a virar a página de um novo livro.