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quarta-feira, 2 de março de 2016

Só hoje



Hoje, e só hoje,
sou pequenina o bastante
para me caber dentro
do teu abraço profundo,
ladeada do teu calor
mais forte que este inverno
cheio de teimosia e vaidade.
Adormeço tranquila no teu colo,
mesmo sabendo que o dia
acaba sempre cedo demais,
despojando-me de vergonhas
por teres ali contigo
o mais vulnerável de mim.
Fecho-me na palma da tua mão
e encolho todos os meus medos
e todas as minhas saudades.
Deixo-me levar nas ondas
desse teu mar revolto
e, assim mesmo, sei
que o barco será mais duro
que qualquer tempestade.
Hoje, e só hoje,
sei-me pequenina diante
do teu desconhecido
que em nada me inquieta,
mas desperta o cuidado
que a tua memória minha
não apague os passos passados
na areia já de ondas idas
e que a vontade que te reconheço
não esmoreça com o que há-de vir.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Uma estória por encantar



Era uma vez uma estória de encantar
que acabou antes de começar.
Aliás, não havia na história das estórias
estória menos estória do que esta.
Esta não tinha protagonistas, nem figurantes.
Não tinha um lugar com espaço livre de sonhar,
nem tempo para o enredo se desenrolar.
O princípio de toda a estória estava no fim por desenvolver.
E o título, esse chamador de atenções,
tinha fugido com a imaginação deste autor por escrever. 

Coitado!
Sentia-se, assim, perdido
este criador de emoções
num caminho sem sentido
que o acudisse às suas aflições.
Ele bem que procurava
uma avassaladora inspiração,
mas também ela já navegava
onde o sol se esconde da razão.
Não obstante tal condição,
mesmo sem nada por contar
com jeito de poder deliciar,
o autor vasculhou-se,
revirou-se,
até palavras fora do sítio debicar
que o ajudassem assim a contar
a mais estória de todas espectacular.
Devagarinho, calcorreou,
como quem treme as varas que nem verdes ainda são,
cada silêncio do e depois?.
E depois?
Depois, imbuído de dom maior,
soube contar bem de cor
a estória mais sem estória
na história das estórias de contar
sempre, sempre ao deitar.

Com pezinhos de lã de carneiro
e pernas de largos passos,
adormeceu o sono por inteiro
ao escutar tais embaraços.
E foi, assim, que terminou
o que nem sequer começou. 


domingo, 14 de fevereiro de 2016

Sobre felicidade



A felicidade tem forma de pele
textura de beijo teu.
Tem cheiro a perdição
e rosto de marotice.
Dá conforto ao sentimento.
Alento à ilusão.
Levanta-nos os pés do frio da terra
e leva-nos para o prazer
de uma palavra simples,
de um gesto genuíno,
de uma partilha qualquer
onde tudo fica especial.
A felicidade de ser feliz
por mim, por ti, por nós. 
A felicidade de existir felicidade:
entrego-me de braços abertos
e coração perdido
pelo teu sorriso,
pelo teu jeito,
pelo que és como homem
de emoções e sensações
até ao fundo mais profundo do teu ser.
A felicidade,  afinal, existe.
Dentro de mim e de ti.
Do que somos
e do que nos faz ser como somos.
A felicidade é aquela recordação.
É tocar ao de leve na alma
fruto do que nos faz tão feliz. 



domingo, 17 de janeiro de 2016

Aguardo pela noite



Pensar em ti faz-me ser-te
até que a noite chegue sorrateira
e me escape no meio dos teus braços
como quem não quer acordar
para o que ainda tem de ser
com tanto que fica por acontecer.
Viro as costas para o frio lá fora.
Nem sequer quero saber
se a chuva cai intrometida na vida alheia,
ou se as estrelas me vigiam ansiosas.
Odeio sentir-me a enregelar
até às memórias de amanhã:
prefiro o refúgio da alma descansada
e o aconchego dos pensamentos catraios.
E todos os arrepios que me provocas,
todos os suspiros que me ofereces
surgem naquele preciso ai dentro de mim.
Pode vir a neve, o vento, a chuva
e a maior das tempestades
que nada me arranca
tamanho sol e céu sem fim.
Porque é infinito o que sou
mesmo que o dia não me acorde mais.
Serei sonho até para sempre.






domingo, 3 de janeiro de 2016

Do sofrimento bom



Saber que há muito por fazer antes de nós. Tanta vida lá fora à espera de um erro ou de uma distracção qualquer.
Mas como poderá haver muito antes de nós se me sabes sempre a pouco? Como poderá haver vida onde o ruído interrompe a cumplicidade de duas almas que se encontraram numa simbiose perto de ser perfeita?
A meiguice do teu silêncio proferido com esses olhos cor de tanto por dizer dão-me a força que preciso para enfrentar a incerteza do amanhã.
Ninguém iria acreditar nesta possibilidade pouco provável de estarmos afastados dentro um do outro. E, menos ainda, de que deste afastamento é que nasce a imensidão do que somos desde o acaso que nos uniu.
Ninguém sabe, nem desconfia, que os sonhos nunca morrem e, sabes?, vejo o futuro à nossa espera sentado numa poltrona de velhos sem vergonha nem pudor de tudo o que já partilharam.
Não acredito no arrependimento quando sei que me deixei levar pela minha consciência, perspectiva, discernimento, mas, acima de tudo, pela inteligência que me acompanha desde o cerne à flor da pele. Precisamente onde tu e eu estamos: no arrepio que me dás e no suspiro que abraçamos. E mesmo que as tormentas se venham a tornar mais fortes que a turbulência do que há-de vir serei feliz por ter sofrido algo tão bom assim.