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terça-feira, 15 de julho de 2014

Do atrevimento



Desengana-te.
Não te deixes iludir
que os teus olhos desejam mais do que sabem
quando não precisam tanto de ver.
Os olhos são o ócio do discernimento.
A perfeição: a miragem no deserto das emoções.
Desengana-te.
Sou tão imperfeita
que quero mais do que me apetece.
A minha vontade é fraca de força:
fragilidade que me rouba os braços
e abraça as asas dos meus devaneios.
Desengana-te.
Posso muito bem estar contigo,
mas estarei mais vezes dentro de mim:
não é não gostar de ti:
é apenas Ser assim.
Será que te atreves?


domingo, 13 de julho de 2014

Sozinha na multidão



Quero estar sozinha.
Quero muito estar sozinha
acompanhada de ti
na já memória.

Quero ler-te a palma das mãos
com palavras ditas da boca para dentro
para que me afagues os cabelos
soltos ao vento de um suspiro.

Quero fugir-te por alma fraca
despida quando me olhas.
Calar a tua pele cheiro a abraço
e escutar o teu peito cheio de vida.

Quero que me arrepies o medo
de não te descobrir em mim
e, sozinha, me encontre
no meio de uma multidão.


domingo, 6 de julho de 2014

Eu não sou tua



Eu não sou tua.
Não sou de ninguém.
Sou ser do universo
enquanto me quiser por aqui.
Surgi num querer sem querer
e cá tenho andado à deriva de mim.
Estou maior do já fui
aos trambolhões pelos meus sonhos:
de nada tenho muito.
Sei-me efémera e frágil
e que o vento, um dia, levar-me-á
para o útero da vida:
deixarei pedaços de mim
espalhados por aí.

Perdoa-me,
mas eu não sou tua.


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Em branco



Estou aqui:
sem ser o que sou
naquilo que faço
com o que penso.
Estou aqui:
sem escutar o que sinto
com receio de tudo
e medo de nada.
Estou aqui sem estar
por estar sem gosto de ser.
Encruzilhada
embrulhada
em papel de jornal
amarfanhado de notícias em branco:
leitura cega
do que simplesmente desconheço… 


sábado, 3 de maio de 2014

O meu Dia da Mãe



Nasceste numa segunda-feira.
Depois de peripécias e sobressaltos
(que mais pareciam uma sequela
de uma outra novela mexicana vivida 3 anos antes),
nasceste.
Pequenina.
Ainda mais pequenina do que o teu irmão
(não sabia que era possível).
Cheia de cabelo escuro.
Morena.
Pequenina.
Nasceste, mas não nasceste sozinha.
Nasci contigo.
Sabes? É isso que acontece às mães:
nascem quando nasce um filho.
É um nascimento que não se explica.
É um crescimento sem régua para medir.

Desde o dia que o Nuno, o teu mano,
te viu pronta para a vida
e te trouxe para casa,
nunca mais te largou a mão.
Ainda de regresso a casa,
lá espreitava a tua cadeirinha
a certificar-se se estarias bem.
Ajudou-me a dar-te banho,
a mudar-te a fralda,
a pentear-te com muito jeitinho.
Um bebé grande a cuidar de uma bebé pequenina.
Cresceste com ele a teu lado:
a apertar-te as bochechas,
a dar-te beijinhos babados,
a aborrecer-te,
a divertir-te.
A proteger-te.
Acima de tudo a proteger-te.
Sempre.

O que és: sei eu.
Sei-o a cada dia que passa:
a minha menina.
Sempre.
Aconteça o que acontecer.