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domingo, 27 de abril de 2014

As rugas da inocência



Não sei se valerá a pena
desenterrar fantasmas,
lutar contra moinhos
que tinham ficado algures
numa vida passada.
(A inocência tem rugas
disfarçadas de responsabilidade.)

Arrancar de nós
o que nunca se sentiu na ponta do dedos,
mas bem no meio da alma;
abanar a estrutura que nos suporta
para sacudir as teias que nos enredam e sujam.
(A inocência tem rugas
disfarçadas de ponderação.)

Não sei se não será melhor
o tempo desfocar memórias
e seguir caminho
rumo ao que nos aguarda.
Esperar
que as rugas disfarcem de vez
a criança que habita em nós…


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Era uma vez...



Dois mundos.
Dois muros.
Unidos pela solidão
pincelada de aconchego.
Um canto sem voz.
Esquina virada do avesso.
Dois muros.
Desconhecidos na criação.
Razão
porque juntos são um.

Dois mundos
caiados de felicidade
que o tempo apressa
com as heras daninhas.

Um canto.
Da vergonha
por deixarem a sua humanidade
trespassar o muro da perfeição.
Derrotados,
derrocados,
pedra ante pedra.
Ruínas de um castelo
ainda por construir.
História de encantar
desencantada com o final que lhe coube.

Era uma vez…


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Virias?



Não sei porque não sei
se virias.
Não sei se te sei.
Não sei se te sou.
Não sei.
E neste turbilhão de nada te saber
balanço tremida se saber seria bom.
Gosto de pensar que sim:
virias a correr, sôfrego.
Seria bom.
Virias sem pensares na razão.
Virias porque querias.
Virias porque Sim: sou eu.
Tal como sou
de cada vez que me sinto
a fugir de mim:
se te vejo
ou se te sonho.
Será que virias?

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Apagado



Sem chão, nem tecto.
Sem cheiro a vida,
nem calor de sangue corrido.
Sem vontade de querer,
nem desejo de ser.
Deambular o corpo
divorciado da alma
metade do que já foi.
Os dias são noites frias:
não correm:
não passam.
Adormecem olhares indolentes
pela certeza que crêem ver:
catarata cega de afectos.

E assim vai-se apagando
as pegadas do que há-de vir…


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Quando a resposta fica sem pergunta



Uma pergunta simples
que ouvia com a complacência
de quem ainda vê
o caminho longo diante de si.
E ela estava ali.
A contemplar o tempo.
A apreciar o calor
dos dias que custavam a passar.

Uma pergunta simples
de quem me via ao longe
e me interpelava
porque me via ao longe.
E eu passava.
Com pressa.
Sempre com pressa
de deixar aquela que foi a minha rua.
A minha vida.
E regressar para continuar
a escrever a minha história:
uma folha de cada vez:
cada vez mais densa.
Mais pesada.

Uma pergunta simples
que não mais vou ouvir.
Nunca mais ninguém,
naquela que foi a minha rua,
me vai ver ao longe
e perguntar:
“Já vais?”
A minha resposta ficou sem pergunta…