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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Apagado



Sem chão, nem tecto.
Sem cheiro a vida,
nem calor de sangue corrido.
Sem vontade de querer,
nem desejo de ser.
Deambular o corpo
divorciado da alma
metade do que já foi.
Os dias são noites frias:
não correm:
não passam.
Adormecem olhares indolentes
pela certeza que crêem ver:
catarata cega de afectos.

E assim vai-se apagando
as pegadas do que há-de vir…


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Quando a resposta fica sem pergunta



Uma pergunta simples
que ouvia com a complacência
de quem ainda vê
o caminho longo diante de si.
E ela estava ali.
A contemplar o tempo.
A apreciar o calor
dos dias que custavam a passar.

Uma pergunta simples
de quem me via ao longe
e me interpelava
porque me via ao longe.
E eu passava.
Com pressa.
Sempre com pressa
de deixar aquela que foi a minha rua.
A minha vida.
E regressar para continuar
a escrever a minha história:
uma folha de cada vez:
cada vez mais densa.
Mais pesada.

Uma pergunta simples
que não mais vou ouvir.
Nunca mais ninguém,
naquela que foi a minha rua,
me vai ver ao longe
e perguntar:
“Já vais?”
A minha resposta ficou sem pergunta…


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Memórias de amanhã



Estou a construir
as memórias de amanhã.
As que desfruto hoje
para recordar
algures adiante
no caminho que me espera.
Estou a agarrar, com todas as minhas forças,
os momentos bons que ainda tenho,
guardando-os dentro do que sou
e do que me faz.
Estou a construir-me
para poder demolir
as minhas fragilidades de alma.
E cada lágrima derramada,
cada pedaço que a vida me esfarrapa
faz-me apreciar o momento
que se segue.
Só assim me sinto capaz
de construir as memorias de amanhã.
As minhas.
E as de quem sou.


domingo, 26 de janeiro de 2014

O dia depois da noite



Adormeço
nos braços do meu cansaço.
Meus olhos
têm o peso do compasso
que acompanha
o desenfrear de mim.
Sinto-me fundir
nos lençóis perfumados
de serenidade e o som
faz silêncio para me levar
com ele nas asas do que sou.
De corpo leve
e alma lavada,
ando por onde nunca estive:
vejo-me como outro que não eu
sendo eu para além deste ser
que me é.
E quando regresso,
aperto contra o meu peito
a graça de ver a vida à minha frente
e afago-lhe cada uma das suas pedras
com mãos de pai
e coração de mãe.
O dia vem sempre depois da noite.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Da verdade



Viver a verdade
é viver de verdade.
É ser sem medo de perecer
na teia da ilusão.

A verdade tem rosto de criança
e alma de velho.
Tem voz de eco no vazio
que invade as certezas que já eram.

Viver a verdade
é viver na dimensão
do tempo com tempo
e com jeito.

Quantas vezes a urna
encerra corpos vazios de vida
e enterra verdades
que mais ninguém conhece?

Apenas por falta de tempo.
Apenas por falta de jeito.