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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Os olhos de uma criança



Os olhos vêem o que a cabeça sabe
ou não sabe deste mundo padrasto
que nos recebeu sem querermos
ser acolhidos nos seus braços frios.
A inocência que trazemos
com a nudez da nossa alma
vai esmorecendo à medida
que o peso dos trapos tapadores
do que já não somos
vai aumentando.

Os olhos de uma criança vêem
para lá da realidade crua:
percorrem lugares esquecidos
no cativeiro do tempo;
sentem o calor do sol apagado
pelos dogmas do nosso limite.
Afortunadas as crianças que crescem,
no infinito dos seus desejos,
a construir momentos sem fim
e a partilhar memórias ainda por revelar.

Haja crianças com olhos assim…


domingo, 20 de outubro de 2013

O pavão



Ave sedutora. Vaidosa. Sabe que tem uma beleza escondida algures atrás de si. Sempre que acha que chegou o momento: zás! Levanta as cores que a caracterizam. Hipnotiza os distraídos. Encanta os apreciadores da natureza no seu estado mais puro.
Da ave todos nós gostamos e achamos graça. Complicado é o pavão mamífero com garras de falcão e olhos de lince. Um híbrido ardiloso, calculista. Predador nato que gosta de atacar as suas presas quando estão desprevenidas.
Quando furioso lança lume pela boca qual dragão mitológico. Este ser, que pulula por onde lhe interessa, nada faz por mero acaso. Nada é uma questão de sorte. É tudo uma questão de estratégia. De um plano previamente estudado para, mais tarde, poder pavonear-se por entre os que diz serem iguais a si, mas que, na realidade, considera inferiores.
Divirto-me com os pavões. Com a ave e com o outro. O primeiro pela sua atracção instintiva; o segundo pela sua reduzida dimensão cognitiva inversamente proporcional ao umbigo: no mínimo, bizarro.
Ainda bem que há diversidade animal!


sábado, 19 de outubro de 2013

O melhor de mim para ti



Não gosto de lamechices.
Odeio palavras ocas
feitas de cópias mal tiradas
do almanaque da semana.
Horrorizam-me gestos pensados;
olhares elaborados.
De mim, não esperes:
“meu amor, minha amada,
minha paixão assolapada.”
Não. Não és minha.
És de ti e a ti pertences.
Na tua plenitude.
E é assim que te quero: tua.

Detesto teatros de rua
encenados de mãos dadas
e de cumplicidades que não existem.
Abomino carinhos de circunstância
acompanhados de pernas entrelaçadas
no sexo que há-de vir.
De ti, quero apenas uma coisa.
Quero nós. Juntos.
Desde há muito.
Desde sempre.
A olhar o nosso sol a pôr-se
e a ver-nos partir com ele.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A dança do fantoche



Deambulamos nossos corpos:
pedaços de almas apáticas,
moribundas de morte sofrida
pela vida
que não temos.
Ovelhas caladas por pastores
impostores,
malfeitores,
camuflados de coisa alguma
que brilha do cimo
do inferno que os há-de acolher
no fim que a todos chega.
Somos fragmentos da inércia
que sentimos: impotentes
descrentes
na raça que nos descomanda
em torno do abismo da decadência:
indecência
paga com migalhas
da honra que ainda temos.
Pilhados.
Ultrajados.
Espezinhados.
É a dança do fantoche na mão
ardilosa do artista escondido
por detrás da sua própria podridão…


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O efeito da chuva



A Senhora Dona Chuva chegou. Altiva e de modos um pouco agressivos, invadiu-nos as ruas, os parques, as praias e enche-nos a paciência, esvaziando-a de nós.
No entanto, a chuva tem efeitos diferentes na paleta de seres humanos que habitam nesta bola gigante:
há quem dance para que ela surja e resolva os problemas da seca;
há quem a deteste e fique mal-humorado e irritadiço;
há quem aprecie ouvi-la no aconchego de uma lareira acesa e um copo de café bem quente;
há quem adore andar à chuva e sentir a frescura da natureza;
há quem dela se abrigue sob cartões improvisados como se de um telhado tratasse.
Para uns: é uma bênção; para outros: uma peste necessária à nossa sobrevivência.
A chuva é assim: atrevida, impetuosa, contraditória. Com a mania que manda e controla as vidas de quem dela depende.
A Senhora Dona Chuva chegou. Façam o favor de a deixar passar. O Senhor Sol agradece. O meu humor também.